Laércio, o Baluarte

Por Priscila Hauer, revista ESPOINT – Do túnel do tempo o som ecoa até hoje, afinal é difícil aceitar que os momentos mágicos se foram. Momentos em que através da voz eram expressos sentimentos, angustias, sofrimentos e muita, muita alegria.  É a época em que o rádio predominava e encantava a todos. Foi exatamente nesse período que surgiu o cronista esportivo Laércio de Arruda, o Baluarte.

O poconeano Laércio – nascido em 1949 – trocou os gramados, mas não os do campo de futebol e, sim, o da secretaria de Educação do Estado, onde atuava como jardineiro, pelo microfone. É isso mesmo, da habilidade com o corte de grama, um jovem rapaz sonhou e acreditou que era possível mudar de lado. De ouvinte apaixonado pelo futebol ele se tornou um narrador dos acontecimentos no campo. Repórter, comentarista, narrador… Multifunções, Laércio se transformou no Baluarte, rótulo que carregou com orgulho durante toda carreira radiofônica.

Quem viveu, jamais esquece os jargões pronunciados por ele. A cada situação, uma denominação diferente. Sobre o clima, Laércio dizia: “Nuvens carrancudas”; sobre as horas: “Os ponteiros estão girando, girando; e, no momento do gol do Mixto, soltava: “doooo Tiiiiiigre”. E foi assim, com suas frases de efeito, como “a bola de fogo chutada pelos pés do tempo nos escanteios das horas”, que foi conquistando espaço.

Mas para que tudo isso fosse possível, a caminhada foi difícil. Ele era ouvinte do Ivo de Almeida – um dos grandes narradores de futebol do rádio de Mato Grosso – e o criticava. Uma tentativa de chamar atenção e tentar provar que era melhor. Um dos seus padrinhos, fundador da Universidade Federal de Mato Grosso, o médico Gabriel Novis Neves – o primeiro reitor da Universidade Federal de MT -, o levou para narrar um jogo no Hospital Psiquiatra Adalto Botelho. Isso mesmo, ali foi o pontapé do que parecia uma grande loucura.

Aprovado, também por Novis, ele foi encaminhado a Rádio Cultura – na época o prédio ficava na Rua Galdino Pimentel -, onde foi reprovado no teste. “Mandaram procurar outro tipo de emprego, porque para aquele eu não servia”, lembra Laércio. Foi então que ele tentou a sorte na Rádio Difusora, um divisor de águas na sua vida. “Foi em 1968. Surgimos apresentando o novo, com uma equipe jovem formada por mim, na época com apenas 20 anos, Lino Pinheiro e o finado Jota Márcio (outro narrador histórico no estado)”.

Na emissora ajudou a encabeçar a campanha de construção do Estádio Verdão. “Vimos ao encontro com a voz do povo. Tínhamos o melhor futebol, com Mixto, Operário e Dom Bosco no auge, mas o melhor estádio estava em Campo Grande, o Pedro Pedrossian (Morenão)”, lembra. Já predominava ali a rivalidade entre Campo Grande e Cuiabá, isso bem antes da divisão do Estado.

O Dutrinha não tinha capacidade para suportar o sempre grande número de torcedores. Mas, mesmo assim, eram mal interpretados pelo dirigente da Federação de Futebol na época, que, claro, corria o risco de deixar de faturar no estádio da entidade. “Enquanto mantínhamos a campanha pró-Verdão, éramos sabotados, proibidos de entrar nos estádios”, conta.

Mas a inauguração do estádio José Fragelli, o Verdão, mostrou que a luta valeu a pena. “Vimos o sonho se tornar realidade. Senti no povo a alegria de ter um estádio”, revela, ao lembrar-se do jogo pré-inaugural entre a seleção cuiabana e o Fluminense do Rio de Janeiro. Sobre o Verdão, aliás, é bom registrar que Laércio foi favorável à sua demolição. “Um lugar que vivemos uma história bonita, mas diante da grandiosidade da Copa de 2014 já estava na hora de se fazer um novo estádio. Simples reformas não atenderiam a grandiosidade do evento”, acredita.

Depois da Difusora, Laércio passou pela Rádio Voz do Oeste e na Cultura, onde havia sido rejeitado. Foi lá, inclusive, que ele diz ter se “aposentado oficialmente” do rádio esportivo, em 1998. Mas, é claro, não largou o microfone. Ainda atuou pela Gazeta AM, Industrial de Várzea Grande e partiu para Sinop. Ainda nos anos 80 também se aventurou na TV, com o amigo Macedo Filho.

Sobre os chamados ‘anos dourados’, tanto do rádio como do futebol estadual, um saudosismo inegável. “Era uma época romântica, porque fazíamos pelo gosto, a dedicação era exclusiva, tínhamos um futebol forte e as autoridades reconheciam o esporte como uma atividade de lazer. Uma época marcante. Hoje estamos muito distante daquele tempo”, comparou Laércio ao afirmar em seguida: “o rádio ainda é o maior veículo existente, principalmente o AM. Tem força nas transmissões esportivas. Mas em nível de estado houve enfraquecimento comercial devido à decadência do nosso futebol”.

 


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