Seis minutos históricos

O artista performista norte-americano Andy Whorey é autor de uma frase célebre: “um dia, todo mundo será famoso na vida, pelo menos por cinco minutos”. O ponta-direita Odair Pedroso, o Tuta, teve o seu momento mágico de fama. Mas, no seu caso, a tal fama foi muito além dos cinco. Tuta, que morreu em 2006 vítima de um acidente de carro na região norte do Estado, escreveu, como protagonista, uma das mais importantes páginas da história do Mixto Esporte Clube. Tem garantida sua fama eterna.

Tudo graças a apenas e tão somente seis minutos, seis minutos eternizados. Foi no dia 12 de junho de 1976, no Estádio Governador José Fragelli, o Verdão – lamentavelmente demolido -, quando Mixto e Operário em mais um memorável Clássicos dos Milhões disputavam o direito de representar a Baixada Cuiabana pela primeira vez no Campeonato Brasileiro. Até então, apenas as equipes de Campo Grande (Comercial e Operário) haviam tido esta honra dentro do ainda uno estado de Mato Grosso.

O Tricolor de Várzea Grande vencia o duelo por 2×1. O empate dava a vaga ao Operário, mas o jogo mudou quando Tuta entrou em campo. Sofreu um pênalti (cobrado por Pastoril) e o Mixto empatou o jogo; depois, marcou o gol da virada e, no mesmo lance, saiu contundido. Ficou no gramado apenas e tão somente exatos seis minutos. Também, não precisava mais nada. Já tinha entrado para sempre na história.

Em 2001, Tuta falou, sempre com o bom humor que lhe era peculiar, ao jornal A Gazeta. Foi tema de reportagem especial, matéria de uma página inteira. “Eu estava contundido e não queria mais jogar. Tinha decidido parar. O técnico era o Careca (Roberto de Jesus César, que depois viria a se tornar um dos principais comentaristas esportivos de Mato Grosso) e encontrei com ele lá no centro da cidade, no dia do jogo. Ele pediu para ir na concentração e ficar com o grupo. O Lisboa (Benedito, ex-roupeiro do Mixto) foi quem me relacionou para o jogo. Foi inesquecível, mudou minha vida”, contou, sem esconder a emoção.

Após bater o Operário neste confronto, o Mixto precisou ainda empatar com o Dom Bosco e vencer o União para carimbar a vaga, mas foi o ‘confronto dos seis minutos’ que mudou a história e transformou Tuta em um mito para os mixtenses.

O herói chegou em Mato Grosso através dos radialistas Jair Figueiredo e Antero Paes de Barros, em 1974, para jogar no Alvinegro. “Foram me buscar em Campo Grande (estava no Operário de lá) numa Variant que furou o pneu várias vezes. Quando cheguei e vi onde seria a república, pedi para voltar. Não deixaram”, lembrou o craque que nunca mais deixou Mato Grosso.

A carreira foi encerrada prematuramente, em 1977. “Tive que parar. Ganhava mal e só recebia atrasado. Tive que escolher entre sustentar a família ou seguir a carreira”, explicou o homem que fez muitos amigos, continuou batendo sua bolinha e deixou sua marca como uma pessoa divertida, que transformava tudo em piada, encarava a vida com alegria. Deixou saudades e uma marca que o destino reserva para poucos: ídolo de uma nação, a nação alvinegra, certamente eternamente grata.

 


“Coisas do destino”

Roberto de Jesus César, o Careca, o ex-treinador que virou comentarista esportivo, também teve sua vida mudada graças aos “seis minutos do Tuta”. Entrou para a história como o primeiro treinador a classificar um time da Baixada Cuiabana para o Campeonato Brasileiro. Define Tuta como seu “amuleto”.

Ao lembrar o jogo histórico, Careca faz um depoimento revelador, e diz que chegou a ser demitido pelo presidente do clube (Lourival Fontes, já falecido), horas antes da partida:

“Eram onze horas da manhã de sábado, dia 12 de junho de 1976, dia do jogo. Eu descia a Barão de Melgaço (rua no centro de Cuiabá), a pé, e encontrei o Tuta. Ele realmente nem estava relacionado para o jogo.

Eu o convidei para ir até a concentração e dar uma força para os companheiros. Ele foi e acabou ficando no banco. Na partida, quando eu quis tirar o Zair mandei o Luiz Paulo Caxambu aquecer, mas ele já tinha até tirado as chuteiras. Olhei para trás e enxerguei o Tuta, meio escondido, como quem não queria ser visto, não queria entrar no jogo. Foi um lampejo, pensei: ele é veloz, entra bem na diagonal, pode mudar esse jogo.

Perdíamos por dois a um. Ele entrou e na primeira vez que pegou na bola foi calçado pelo Lázaro, zagueiro do Operário. Pênalti que o Pastoril cobrou e empatou o jogo.

Quatro minutos depois viramos o jogo: Tuta recebeu um cruzamento de Jorginho, entrou justamente na diagonal, pelas costas do Miro (zagueiro tricolor), que não o viu, e, com o Carlos Pedra saindo do gol, Tuta pegou de primeira, um balaço no ângulo, marcando o terceiro gol.

No lance foi atingido pelo goleiro do Operário, no tornozelo, e saiu de campo, contundido. Tudo isso aconteceu dos 17 aos 23 minutos do segundo tempo”.

 


A TRAJETÓRIA DO ÍDOLO

Nome: Odair Pedroso

Apelido: Tuta

Nascimento: São Paulo, 13/3/1950

Clubes onde jogou: Ferroviária-SP, Rio Branco-SP, Atlético-Três Corações-MG, Marília-SP, Corinthians Prudente-SP, Operário-MS e Mixto

Títulos: campeão paulista da Segunda Divisão e campeão mato-grossense

Último ano como profissional: 1977

* Morreu em 2006 vítima de acidente de carro na região Norte de Mato Grosso

 

(Na foto, Tuta com Rivelino, então no Fluminense, na pré-inauguração do Estádio Verdão, em 1975)

 


TUTA FALA SOBRE O JOGO HISTÓRICO. VEJA:

 

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