A voz que não se cala

Polêmico, impetuoso, carismático e protagonista de algumas passagens que entraram para o folclore do rádio, principalmente em função de seu estilo perfeccionista de trabalhar. Sem papas na língua, o cuiabano Roberto França é apontado como o mais popular comentarista da história do rádio de Mato Grosso – era o ‘Comentarista do Povo, A Voz Que Não Se Cala’. Falava o que o torcedor gostava de ouvir, era direto, duro, simples. Roberto, que também foi jogador, levou para o microfone o estilo que trouxe das suas experiências como treinador de futebol e vereador.

Começou a carreira de radialista na rádio A Voz do Oeste e depois foi para a Rádio Cultura, onde ficou 18 anos. Também atuou pela rádio Difusora de Cuiabá. Deixou o rádio no final da década de 80 para retornar à política – foi deputado estadual, deputado federal e duas vezes prefeito de Cuiabá. Voltou a trabalhar na imprensa em 2006 apresentando um programa jornalístico na TV Rondon (Resumo do Dia), onde está até agora, com muito sucesso.

França entrou para o rádio através de um convite feito pelo saudoso Eduardo Saraiva, um dos maiores repórteres esportivos de todos os tempos. “Eu era vereador em Cuiabá e técnico de futebol, aí veio o convite do meu grande amigo e companheiro Saraiva. Comecei o esporte amador”, conta o radialista que foi treinador do Canarinho e do Independente, além da seleção amadora de Cuiabá e dos dois principais times do estado: “tive a honra de treinar o Operário de Rubens dos Santos, o Mixto do professor Ranulfo de Barros e ainda o Palmeirinhas do Porto do meu querido compadre Délio de Oliveira”.

“Como jogador do Mixto fui um atleta apenas regular, mas tive o prazer e a satisfação de jogar ao lado de craques como Ruiter, Felizardo, Glauco, Darcy Piquira, Rômulo, Ademir Moreira e tantos outros”, recorda, sem esconder que foi nas ondas do rádio que ele realmente se realizou:

– Realmente sou um apaixonado pelo rádio. Trabalhei no rádio esportivo por mais de 25 anos. Só na Rádio Cultura trabalhei mais de 15 anos com a famosa Equipe 1.300.  Nesse período vivemos momentos áureos do nosso futebol e tínhamos uma disputa e concorrência salutar com as outras emissoras, que muito contribuiu com o sucesso do futebol naquela época.

França deixou de trabalhar no rádio no final da década de 80 quando era deputado estadual e presidente da Assembléia Legislativa. “Essa nova função em minha vida pública não permitia tempo necessário para desempenhar as duas juntas. Preferi então cumprir com dignidade e respeito o voto do povo, desenvolvendo só o trabalho de parlamentar”, afirmou o radialista, confessando que “por questões familiares e compromissos profissionais, não penso em voltar ao rádio esportivo”.

 


Saudades dos bons tempos

Quem viveu os chamados ‘anos de ouro’ do rádio e do futebol de Mato Grosso não consegue esconder a saudade. E as comparações com os dias atuais são inevitáveis. “Falta mais profissionalismo, bem como mudar a mentalidade dos nossos dirigentes”, sentencia Roberto França ao falar sobre o futebol de hoje.

– O futebol atual tem que ser tocado como uma empresa e não de maneira amadora. A FMF e os clubes tem que ter um departamento de marketing para correr atrás dos patrocinadores, não podem ficar dependentes apenas dos míseros recursos das rendas dos jogos.

Para França, “o rádio já deu e continua dando a sua contribuição, divulgando e incentivando o nosso futebol”, as mudanças, porém, dependem da cartolagem. “Não se pode cobrar do rádio, da imprensa esportiva, mais do que eles fazem. Mudar a situação foge do alcance da crônica, e não é essa a função do rádio, mas sim dos dirigentes”, acrescenta.

Assim como do “futebol que lotava o Verdão”, Roberto diz que a saudade também é grande do rádio esportivo de antigamente. “Tínhamos grandes profissionais em todas as emissoras e tudo era feito com muita dedicação. Existia uma motivação muito grande, sorteávamos prêmios durante as transmissões, que ajudavam muito a promover os jogos”, recorda.

– Trabalhar no Rádio Esportivo, foi um aprendizado maravilhoso. Agradeço a todos que compartilharam dessa experiência. Foram momentos extraordinários de minha vida, e que me proporcionaram muitas alegrias e felicidades. Fazia o rádio esportivo com satisfação e prazer, e vibrava após cada transmissão realizada.

‘A Voz Que Não Se Cala’ sempre foi incansável. “Abríamos as jornadas ao meio dia com o Musibol e a partir das 15 horas continuávamos direto do estádio. Além da cobertura do nosso futebol, transmitíamos todas as decisões dos campeonatos Carioca e Paulista. Teve um ano, que fizemos uma transmissão inédita para o nosso rádio esportivo: transmitimos simultaneamente quatro decisões de cidades diferentes. Vasco x Fluminense no Rio, Corinthians x Palmeiras em São Paulo, Cruzeiro x Atlético-MG em Minas e Internacional x Grêmio em Porto Alegre. Foi um show de bola”, relata com emoção. “Mas os tempos eram realmente outros, pois naquela época tínhamos de 20 a 40 mil pessoas no Verdão, por ocasião dos clássicos locais e os nossos times tinham grandes craques”.

 


Um grande mestre

 

Por Davi Cézar

Roberto França Auad é, com certeza, um dos profissionais mais perfeccionistas que conheci. Adorava trabalhar com ele. Aprendi muito. Aos domingos, íamos juntos para a Rádio Cultura por volta das 9, 10 horas da manhã, para começar a produzir o Musibol Esportivo – na década de 80, uma das mais importantes atrações do nosso rádio, onde o cardápio era fixo: músicas (muitas antigas, algumas poucas atuais), gols de arquivo, entrevistas e reportagens, e a participação dos ouvintes opinando sobre o placar dos jogos que seriam transmitidos.

O Musibol ia ao ar geralmente do meio-dia às 15h, quando começava a jornada esportiva – sempre pelo menos duas horas antes dos jogos. Eu chegava as nove – muitas vezes ele passava na minha casa – e saia as nove… da noite. Geralmente almoçávamos por lá e em algumas ocasiões eu ia com seu carro à casa de sua mãe – na Rua 24 de Outubro – buscar o almoço. Ou Roberto pedia para alguém trazer.

Quando o Musibol começava – apresentado pelo próprio – eu subia para o segundo andar, onde funcionava o Departamento de Jornalismo – e ia preparar o meu plantão esportivo. Só deixava o Palácio do Rádio depois de apresentar o Resumo Esportivo, ao final da jornada.

Escolhido por ele para ser o coordenador da equipe, fiquei responsável também pelos textos das chamadas dos jogos. Ou melhor, encarregado de redigir na velha máquina de escrever o meu texto que em seguida seria totalmente alterado por Roberto. Funcionava assim: eu criava o texto, levava para o Roberto e ele mudava tudo, mas tudo mesmo.

Para ele, chamada que não tivesse expressões como “espetacular, monumental e sensacional”, não prestava. Eu me esforçava para fazer um texto leve, dinâmico, moderno. Mas sabia que não iria adiantar.

– Olha, vou dar só uma mudadinha aqui, colocar esta palavra – começava ele, riscando e rabiscando.

Admito que no início me sentia um pouco frustrado, mas acabei acostumando e até me divertindo. Com o passar do tempo, já fazia de ‘sacanagem’, só para vê-lo mudando tudo para o velho, o bom e velho texto de sempre. Junto com o resto da equipe, ríamos muito disso.

Profissional apaixonado e extremamente dedicado, França exigia o mesmo de todos com a mesma freqüência e ritmo com que pegava ‘corda’ dos seus companheiros de trabalho e na maioria das vezes reagia de maneira hilária, folclórica até. Mesmo nos seus rompantes de autoritarismo 100% centralizador, que eram raros, provocava gargalhadas e era idolatrado por todos.

Foi um mestre para muitos, um mestre apaixonado por aquilo que fazia, sempre com a certeza de que dava para fazer melhor. Comecei minha vida profissional na Rádio Cultura de Cuiabá, onde fiquei 10 anos – fui plantonista, coordenador de esportes e editor-chefe do Grande Jornal Falado – e ‘A Voz Que Não Se Cala’ foi um dos melhores professores que a vida me deu.

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One Comments

  1. Uma Bela Lembrança, pois trata – se de um grande profissional do rádio, Roberto França, é meu amigo particular, pois tive ah onra de trabalhar com ele em algumas partidas , tanto Amador, como no Profissional.
    Falar bem do Roberto, é chover no molhado, ..
    Cláudio de Oliveira
    Jornalista

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