Morre o ex-presidente Carlos Orione

Um dos mais importantes dirigentes da história do futebol de Mato Grosso, Carlos Orione, morreu na noite deste domingo aos 79 anos de idade, que enfrentava vários problemas de saúde já há alguns anos. No início deste ano ele renunciou a presidência da Federação Mato-grossense de Futebol após mais de 30 anos no cargo.

O velório acontece na Capela Jardins, em Cuiabá. O enterro está marcado para às 17h no Cemitério Parque Bom Jesus, em Cuiabá.

Carlos Orione completaria em maio deste ano 34 anos no comando da Federação Mato-grossense de Futebol: de 1976 a 1979 como interventor nomeado pela CBF; de abril de 79 a maio de 1980 como presidente eleito; e a partir do dia 26 de maio de 1986 até o dia 16 de fevereiro, quando assinou seu pedido de renúncia. Só ficou fora da FMF entre 80 e 86, quando o presidente foi João da Silva Torres.

Foi de esperança para “colocar ordem na casa”, nomeado interventor após eleição considerada ilegal de Júlio Campos para a presidência, ao rótulo de “grande culpado” pela decadência do futebol regional. Mas, o seu erro de querer se eternizar no cargo não pode apagar alguns atos que contribuíram para a evolução do esporte em nosso estado.

Em uma reportagem especial da revista ESPOINT sobre os 70 anos da FMF, entre as suas principais ações à frente da entidade, o ‘Barão’ destacou a elaboração do novo Estatuto da FMF, em 1980; a  criação e ampliação das Ligas de Futebol Amadoras; e a interiorização do Campeonato Estadual.

O presidente também fez questão de destacar como um de seus principais feitos no comando federacionista a criação da Segunda Divisão de Futebol Profissional. “Graças a Segundona vários clubes surgiram, como o Juventude de Primavera do Leste, que anos mais tarde chegaria a golear o Fluminense no Verdão, pela Copa do Brasil”, lembrou o dirigente.

Paralelo a essa evolução, Orione destacou sua “articulação” junto a CBF para a inclusão de cinco equipes no Campeonato Brasileiro entre os anos de 1976 e 1980: Mixto, Operário, Dom Bosco; Comercial e Operário Futebol Clube (ambos de Mato Grosso do Sul).

“Foi nessa época que o nosso futebol obteve um grande feito. O Operário de Campo Grande terminou em terceiro lugar no Campeonato Brasileiro de 1977 e só não foi mais longe porque foi prejudicado pela arbitragem”, registrou.

Na matéria especial, Orione também destacou a reforma e ampliação do sistema de iluminação do  Estádio Presidente Dutra, em parceria com o Governo do Estado em 1990, e a articulação junto a CBF para a apresentação da Seleção Brasileira em Cuiabá, em jogos amistosos no extinto estádio Governador José Fragelli – o Verdão.

Mais recentemente, enalteceu a venda do Dutrinha a Prefeitura de Cuiabá. “Era um objetivo antigo, pois a Federação não tem condições de manter um estádio. O poder público possui bem mais alternativas”, considerou. Embora muito criticado, o negócio, segundo ele, “era inevitável”.

Modernização e evolução

A implementação de um novo modelo de gestão na FMF faria parte do Plano de Modernização do Futebol Brasileiro, da CBF, a partir de 2005. Projeto que contribuiu para a melhoria nos serviços prestados e também possibilitou a criação de novas competições.

Primeiro foi a informatização da entidade, com a utilização da internet, agilizando os trabalhos, desburocratizando os trâmites legais dos clubes e atletas junto à CBF.

Também com orgulho, Orione lembrou a implantação da Diretoria de Desenvolvimento do Futebol e Reformulação da Comissão de Arbitragem da entidade, com a contratação do experiente professor Admir Neves Moreira (ex-atleta, técnico e mestre da Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT).

No ano de 2004, a FMF implantava a Copa Governador, posteriormente denominada de Copa Mato Grosso, em parceria com o Governo do Estado (Secretaria Estadual  de Esportes e Lazer). Hoje é a Copa Federação, em função do fim do patrocínio do oficial do Governo à competição.

O fomento às categorias de base também ganhou reforço com a realização dos Campeonatos Sub-17 e Sub-18, nas preliminares dos  jogos do Campeonato Estadual e Copa Mato Grosso, respectivamente, também em parceria com o Governo do Estado (Seel).

Em 2005, Orione autorizou – em parceria com a CBF e outras entidades – a implantação da Escola Brasileira de Futebol em Mato Grosso (sistema on-line) – uma escola de conhecimento com o propósito de modernizar e profissionalizar o futebol através da capacitação, pesquisa e extensão.

Jogos internacionais

A vinda da Seleção Brasileira principal quatro vezes e jogos das Copas Conmebol e Supercopa da Libertadores para Cuiabá são outras conquistas que orgulham o ex-presidente da FMF. Orione faz questão de frisar que “foram atenções especiais da CBF em função de nossas reivindicações para que isso acontecesse”.

A primeira vez do escrete canarinho no Estádio Verdão aconteceu em 1980, quando o técnico Telê Santana preparava a equipe para o Mundial de 1982, na Espanha: vitória por 2×0 sobre a Suíça. Depois, o Brasil ainda jogaria na capital mato-grossense em 1989 (1 x 0 sobre o Equador), 1992 (3×1 na Finlândia) e 2002 (goleada de 6×1 sofre a Islândia).

Em 1996, Orione voltou a usar seu prestígio com a CBF e a Confederação Sul-Americana de Futebol para a realização da final da Copa Conmebol, em Cuiabá, com a participação de São Paulo, Botafogo, Atlético Mineiro (Brasil) e Rosário Central (Argentina). O campeão foi o São Paulo Futebol Clube, que derrotou o Clube Atlético Mineiro pelo placar de 3 x 0.

No mesmo ano, a FMF trouxe à Cuiabá a Copa dos Campeões da Libertadores da América, com a participação de Flamengo (RJ), Grêmio (RS), São Paulo e Santos (SP). O São Paulo ficou com o título.

A Copa do Pantanal

Ainda relacionada a seleção brasileira, outra ação que orgulha e também traz uma certa mágoa ao dirigente é a Copa do Mundo de 2014. Como amigo pessoal do ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, Orione trabalhou nos bastidores para fazer de Cuiabá uma das sedes.

“Tentamos sensibilizar a CBF e a Fifa de que o os olhos do Mundo precisavam se voltar para o Pantanal, mas não são apenas as belezas naturais que motivaram a aceitação e a nossa escolha. A Fifa pregava uma contribuição com o desenvolvimento do futebol em estados que por um motivo ou outro estão fora da elite do futebol nacional”, lembrou o dirigente.

Ele só não esperava, no entanto, ser “completamente alijado dos louros da conquista” pelas autoridades estaduais.

Além do tempo necessário

Chegando aos 80 anos de idade, Carlos Orione saiu de cena após insistentes pedidos de dirigentes, torcedores, cronistas esportivos e até de familiares. Desgaste que ele poderia muito bem ter evitado se seu apego ao cargo e a FMF não fosse tão grande. Demorou mais de 20 anos para tomar uma decisão e isso só foi aumentando as críticas e a ira de seus opositores. Neste tempo, o futebol regional foi acumulando problemas, se distanciando do público e perdendo credibilidade. Tudo debitado, certo ou errado, na conta do Orione.

“O Dr. Carlos teve participação decisiva na evolução do futebol de Mato Grosso, mas não deveria ter ficado tanto tempo no cargo. Isso só trouxe prejuízos, para ele e para o próprio futebol. Respeito tudo o que ele fez pelo esporte, mas já tinha passado muito da hora de deixar o cargo para outro”, avalia Roberto de Jesus César, o Careca, ex-jogador e técnico, experiente comentarista esportivo.

“O nosso futebol foi muito bem sob o comando do Barão nos primeiros anos, nos primeiros mandatos dele e depois, a partir da sua volta, em 1986, com o processo de interiorização. Teve grande participação também, com sua influência, junto a CBF para trazer eventos para o Verdão, inclusive internacionais. Temos que reconhecer que ele contribuiu muito, mas insistiu demais em ficar no cargo e aí os problemas foram aparecendo. Assim como contribuiu para o crescimento, Orione tem culpa também pelo atual estado das coisas, não é o único, mas tem culpa”, comentou Macedo Filho, também comentarista esportivo.

Carreira

Natural de Guiratinga (região Sul de Mato Grosso), Carlos Orione se formou em Direito pela Faculdade de Direito Cândido Mendes-RJ em 1962. Exerceu a advocacia nos anos de 1962 a 1968, em Guiratinga, e em 1968 ingressou na carreira do Ministério Público Estadual através de concurso, sendo promovido em 1973 ao cargo de procurador geral da Justiça no estado de Mato Grosso.

Além de outras nomeações pelo Governo do Estado, exerceu os seguintes cargos: diretor administrativo das Centrais Elétricas Mato-grossense S.A. – CEMAT; diretor administrativo do Instituto de Previdência do Estado de Mato Grosso – IPEMAT; e diretor do Centro de Processamentos de Dados do Estado de Mato Grosso – CEPROMAT.

 

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